sábado, 27 de junho de 2009

MANUEL FURTADO DOS SANTOS
25 de Junho a 31 de Julho
(O artista estará presente nos dias 11 e 18 de Julho)

PÓS-

Nesta exposição de assemblagem e fotografia é explorado o momento imediatamente após o acidente enquanto “milagre invertido”; uma paragem ilusória do tempo que permite uma perspectiva diferente sobre esse mesmo tempo. É um momento de intensidade extrema que se revela como uma estranha calma inquieta e desconfortável. O espaço e o tempo ficam alterados depois do choque. Há no meio da adrenalina e do stress uma perplexidade, “o que é que aconteceu? Onde estou?” e a expectativa antecipada do próximo acidente.

É aqui assumido o desafio de começar um “museu de acidentes” cuja colecção é criada com alguns desastres menores de automóveis. De uma forma geral o carro representa o século XX, a produção em série, o objecto central de desejo, fetiche e afirmação social como ainda se verifica actualmente. Portanto o título desta exposição refere-se também a um século que não pára de se anunciar a si próprio (o século XXI) e ao qual falta a afirmação suficiente para que não viva na sombra do anterior.

Está implícito ao que foi dito anteriormente, uma necessidade de mudança de paradigma cultural, social e artístico. A sucessão infinita de acidentes assume-se como impulsionadora insuficiente da mudança e assim surge a expectativa pós-moderna da catástrofe. O grande responsável por esta perspectiva partilhada é o sincronizador global de emoções, a televisão, que poderá entrar em mira técnica após a tão esperada tragédia. Sincronizará finalmente a população para a calma do vazio de conteúdo e de desejo.

Tal como o século em que vivemos, apesar de muito anunciado, este cataclismo parece tardar em acontecer. Algumas imagens da Índia, recolhidas ao longo de três meses, funcionam como um retrato do mundo que tem a expectativa antecipada do próximo acidente mas que sente a catástrofe como algo que está constantemente presente.

Há portanto a vontade de juntar nesta exposição algumas letargias de uma sociedade ocidental com a esperança Indiana num modernismo extemporâneo. Estas evidências paradoxais inerentes a todos os sistemas são materializadas nestes trabalhos que pretendem explorar conflitos entre conceito e forma, o objecto e o pictórico, a depressão vivida na megalopolis ocidental e a ansiedade de um riquexó que transporta peças de automvel para que outros usufruam dessa comodidade.
Não pretendendo ser etnográfico, este conjunto de trabalhos pretende usar estas tensões globais para explorar problemas intrínsecos à produção artística encerrando em cada imagem e composição a vivência de um flâneur e o paradoxo de uma civilização.



Sem título
2009, técnica mista, 57,5x72cm


Sem título
2009, técnica mista, 154,5x2cm




Sem título
2009, técnica mista, dimensões variáveis


Sem título
2009, técnica mista, 1,75x1,25cm


Sem título
2009, técnica mista, 1,65x1,25cm



Sem título
2008, impressão digital, 101x73cm



Sem título
2008, impressão digital, 77,5x97,5cm




Sem título
2008, impressão digital, 97,5x77,5cm


Sem título
2008, impressão digital, 97,5x77,5cm


Sem título
2008, impressão digital, 97,5x77,5cm



Sem título
2008, impressão digital, 97,5x77,5cm


Sem título
2008, impressão digital 97,5x77,5cm




Sem título
2008, impressão digital, 97,5x77,5cm




Have(1)
2008, impressão digital, 77.5x85,5cm


Have(2)
2008, impressão digital, 77,5x97,5cm



Sem título
2009, técnica mista, 1,75x1,25cm



Vistas da Exposição




























quinta-feira, 28 de maio de 2009

PAULA PRATES
21 de Maio a 20 de Junho

O Caos – nuvem

O Caos – Nuvem é o título da mais recente exposição da artista Paula Prates, na qual apresenta um conjunto de desenhos que se inscrevem na linha conceptual da sua última mostra na Sala do Veado.

Cubos, paralelepípedos, prismas, pirâmides e outros volumes avançam em direcção ao espectador numa explosão de geometrias, em que o dinamismo e a agressividade são reforçados pela paleta cromática e pela tridimensionalidade das formas cujos ângulos emergem ameaçadoramente a partir de um plano pictórico sereno e bidimensional.

Como que contradizendo as formas orgânicas e naturais, que aparecem em fundo, ou que timidamente se vislumbram no meio do caos, ou até mesmo se elidem, o desenho remete-nos para uma dimensão escultórica e arquitectónica, num jogo de planos, em que a desordem, ao contrário do espectável, é dada pelo excesso de geometrização.

Partindo de imagens que decorrem de uma base tecnológica, virtual, Paula Prates reintegra-as no universo do humano através da manualidade perceptível nas texturas.


caos-nuvem #1, 2009, lápis de cera s/ papel, 105x140 cm



caos-nuvem #2, 2009, lápis de cera s/ papel,140x174 cm


caos-nuvem #3, 2009, lápis de cera s/ papel, 105x140 cm


caos-nuvem #4, 2009, lápis de cera s/ papel, 105x140 cm



caos-nuvem #5, 2009, lápis de cera s/ papel, 70x95 cm



caos-nuvem #6, 2009, lápis de cera s/ papel, 70x95 cm



caos-nuvem #7, 2009, lápis de cera s/ papel, 70x95 cm


caos-nuvem #8, 2009, lápis de cera s/ papel , 70x95 cm


caos-nuvem #9, 2009, lápis de cera s/ papel, 70x95 cm



caos-nuvem #10, 2009, lápis de cera s/ papel, 70x95 cm
Vistas da Exposição












terça-feira, 21 de abril de 2009

RAQUEL MENDES
18 Abril a 16 Maio


VEROSÍMIL: DIÁRIO ritual.

Existe uma elegante e directa simplicidade no trabalho multi-média de Raquel Mendes. Os trabalhos de vídeo são filmados em tempo real, sem edição ou manipulação. Os assuntos que capta com a câmara - a casa, pertences pessoais e reuniões de família - são familiares a todos nós. E ainda o poder real do seu trabalho decorre de coisas - abstracções - que escapam totalmente à câmara: tempo e mortalidade, amor e perda. Debaixo da superfície de mundanas aparências do quotidiano, além do poder de descrição, "Verosímil" consegue transmitir algo mais, algo que escapa ao olho.
"O mundo", escreveu Heidegger, "não é a simples recolha do quantificável (contável ou incontável), das coisas familiares e não familiares disponíveis". O mundo surge a partir de processos contraditórios e ambivalentes de perda, esquecimento e redescoberta: " o Mundo nunca é um objecto que está diante de nós e pode ser visto. "

Segundo o antropólogo Levi-Strauss, cozinhar tem um significado profundo na mente humana. Transformar o cru no cozido tem um poder mitológico: em vez de se limitar a ser um método de preparação dos alimentos, é uma forma de mediação entre natureza e cultura, vida e morte, céu e terra. Cozinhar não é apenas um meio para sustentar a vida, é também uma actividade que liga a nossa mortalidade ao sagrado e ao divino.
Os meus amigos sugerem que eu não sou um bom cozinheiro, porque não uso o amor como ingrediente. Hoje em dia geralmente cozinho apenas para mim.

O que a escrita faz com a linguagem, o relógio faz com o tempo; ambos engendram esquecimento e irresponsabilidade. A escrita, advertiu Platão, consiste em letras mortas, separadas pelo tempo e espaço da presença viva de seu autor. As palavras intemporais recolhidas em livros são simulações corruptas da palavra falada, que é formada pela própria respiração do orador, animada pela sua alma. O preço que tanto a escrita e os relógios pagam por subjectivar a experiência vivida em formas abstractas é a introdução da mortalidade. A imagem também participa desta lógica da escrita e do relógio. A imagem (fotográfica) pode pretender consagrar a memória, mas simplesmente escarnece dela. Assim como a escrita mumifica o discurso, a imagem rouba a memória, oferecendo um simulacro no seu lugar.

Estas imagens levam-nos a reflectir sobre uma delicada economia de presença e ausência, de estar e não estar. Como fotografias já marcam a ausência espacial e temporal dessas formas que apareceram ante a câmara noutro lugar. Elas são reminiscências da persistência do escondido no revelado, do oculto no manifesto, do novamente observado e esquecido no considerado e recordado.

O tempo voa, dizemos nós, voa verdadeiramente e directamente do arco do presente ao alvo do futuro. A História, dizemos nós, jamais se repete. No entanto, os nossos antepassados pensavam de forma diferente. Onde nos imaginamos a percorrer uma estrada, avançando ao encontro do futuro, desaparecendo o passado atrás de nós, os nossos antepassados posicionavam-se de forma diferente. Para eles, o futuro desconhecido fica nas suas costas, enquanto os olhos se fixam firmes sobre os contornos familiares de um passado recente. Ainda mais recentemente, a passagem do tempo era entendida como cíclica, meramente um efeito da eterna repetição das quatro estações. A distante memória da recorrência do tempo assombra a face circular do relógio analógico e o prolongado movimento dos seus ponteiros, enquanto circulam e circulam e circulam novamente. Nós, os modernos, vivemos sob um regime diferente do tempo. Os ritmos da máquina destronaram os ritmos da natureza como o pulsar do tempo industrial, e o circuito arredondado da temporalidade foi apagado, transformado numa roda de eficiência. Mas a electricidade tirou-nos o vapor, tal como o vapor tinha substituído o músculo. O relógio digital é a insígnia do tempo sob condições electrónicas. Quando cada novo número surge no visor digital desloca o seu antecessor, condenando-o ao esquecimento. O tempo já não está registado como um fluxo, foi atomizado numa chuva ininterrupta de momentos nucleares. O novo só pode aparecer destruindo o velho. Matar tempo, dizemos nós - como se isso fosse apenas uma metáfora. O tempo tem sido sacrificado no altar do progresso.

O que é o céu? "O azul do céu é um lindo azulado", diz Heidegger, "é a cor da profundidade." É a fonte primordial de todas as medidas - uma medida muito maior e mais profunda do que a oferecida pela uniformização dos sistemas de calibragem. A composição variada do céu absorve a amplitude e profundidade da visão: os seus ritmos de escuridão e luz são inexoráveis e perpétuos. Nada ultrapassa a longevidade e enquadramento da sua distância. No reconhecimento da persistente contemplação do céu, a humanidade é assegurada da sua existência na terra. Existimos, afirma Heidegger, em quádruplo: terra e mortais, céu e divindades.

John Calcutt

Sem Título ,2009, lambda print, 90x90cm

Sem Título, 2009, lambda print, 80x80cm

Sem título, 2009, lambda print, 100x100cm

Eterno Retorno, 2009, DV, 5 monitores, Still image

Poda, 2009, DV, cor, som, 50', Still image

Sombra, 2009, DV, cor, 6' 59, Still image

Vistas da Exposição